A Fundação da Igreja em Sardes
Edificada
sobre um promontório a 500 metros acima do nível do mar, quase
inconquistável, Sardes teve um passado de glória, chegando a ser capital
do reino de Lídia, e sinônimo de prosperidade e sucesso. Era uma grande
fabricante de roupas de lã, próspera em comércio de produtos oriundos
da agricultura. Em Sardes a deusa Ártemis era cultuada.
Assim
como em Éfeso, Esmirna, Pérgamo e Tiatira, o Evangelho pode ter chegado
naquela cidade através da obra missionária de Paulo (At 19.10), mas não
devemos descartar a hipótese de que testemunhas e convertidos no dia de
Pentecostes poderiam ter sido os primeiros a levar o Evangelho para
aquela região (At 2.5-11).
A Condição da Igreja em Sardes
Ao
anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os
sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que
tens nome de que vives e estás morto. (Ap 3.1)
Em sua apresentação nesta carta, Jesus se revela de duas maneiras:
- Aquele que tem os sete espíritos.
A expressão “sete espíritos” descreve a plenitude do Espírito Santo que
é único. Não é por acaso que a plenitude do Espírito é aqui destacada. É
o Espírito Santo quem dá plena vitalidade a uma igreja local. No Novo
Testamento vemos o Espírito Santo atuando na igreja de várias formas,
dentre as quais: Revestindo de poder (At 1.8; 2.1-4; 4.31), trasladando
sobrenaturalmente (At 8.39-40), orientando na separação de obreiros (At
13.1-3), participando das decisões conciliares (At 15.28-29),
direcionado as missões (At 16.6-10), distribuindo dons à igreja (1 Co
12.11). Ao mudar de atitude em relação ao Espírito, uma igreja local
pode iniciar um processo de morte. Os passos para isso são geralmente os
seguintes: Resistir ao Espírito (At 7.51), entristecer ao Espírito (Ef
4.30), extinguir /apagar o Espírito (1 Ts 5.19), blasfemar contra o
Espírito (Mt 12.31-32).
- Aquele que tem as sete estrelas.
Da mesma forma que no caso dos sete espíritos, as sete estrelas falam
da plenitude do senhorio de Cristo sobre a sua Igreja. Ele é o Senhor
absoluto sobre ela. A Igreja tem dono, e pode ter certeza que não é nenhum pastor ou líder nacional, regional ou local. Jesus não tem sócios na Igreja. Apesar
de muitos na atualidade agirem como se fossem donos da Igreja de Jesus,
na realidade, se portam (ou são) como donos das instituições religiosas
por eles fundadas, herdadas ou dirigidas (igrejas locais). Essa postura
inclui: Colocar o patrimônio físico da igreja (instituição) em seu
nome, ou em nome de familiares e parentes, beneficiar-se financeiramente
de forma absurda e escandalosa da igreja (instituição), além de
beneficiar familiares, parentes e amigos, estabelecer o filho ou algum
parente como sucessor, para assim manter os privilégios (afirmo que não
há nada de errado quando os filhos ou parentes são devidamente
qualificados para as funções ou divinamente vocacionados para o santo
ministério, e quando não há interesse na manutenção de privilégios),
ditar as normas, as regras, os costumes e a tradição da igreja
(instituição), ameaçar aqueles que discordam de seus posicionamentos com
cortes de salários, demissões, mudanças para campos, congregações ou
trabalhos menores ou mais difíceis, perda de cargos e funções em mesas
diretoras, supressão de oportunidades para ensino e pregação, etc. Os
donos das igrejas (instituições) estão em toda parte, deitando e
rolando, fazendo e acontecendo, se achando poderosos e irremovíveis.
Infelizmente,
o quadro de saúde espiritual de Sardes tinha se agravado tanto que a
igreja não estava mais em coma, e sim morta. Com cerca de 60 anos de
fundação, a igreja chegou ao fundo do poço. Interessante é que a igreja
mantinha a sua reputação de viva diante dos homens, mas diante de Deus,
que não se engana com reputação, estava morta. Sardes se tornara
esteticamente e aparentemente viva, mas espiritualmente e essencialmente
morta.
Lições que Aprendermos com a Igreja em Sardes
As
Assembleias de Deus no Brasil, assim como a igreja em Sardes, gozam de
uma grande reputação nacional. Grandes e majestosos templos, excelentes
estruturas, escolas, faculdades, hospitais, abrigos, creches, etc. Tudo
isso sinaliza para uma boa condição financeira e econômica. No campo
político já consegue espaço com vários representantes no legislativo e
executivo. Juízes, promotores, advogados, médicos, engenheiros,
administradores e educadores são encontrados entre pastores e membros da
igreja. A maior igreja evangélica no Brasil impõe respeito aos de
dentro e aos de fora.
Sua
história, assim como a história das igrejas da Ásia Menor, foi marcada
pelo poder atuante do Espírito, pelo ensino bíblico ortodoxo, pela
marcante evangelização, pelo dedicado discipulado, pela fervorosa e
sincera adoração, pela maravilhosa comunhão e por outras características
e ações de uma igreja genuinamente cristã.
Assim
como Sardes, e como qualquer outra igreja que já experimentou grandes
momentos em sua história, não podemos de maneira alguma descuidar. Foi
por isso que Jesus advertiu a igreja em Sardes com as seguintes
palavras: “Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer,
porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus”.
(Ap 3.2)
É
preciso estar atento e aprender com a história. Em 214 a.C, Antíoco o
Grande, rei da Síria, enviou seus exércitos contra Sardes. Seus soldados
escalaram os muros desprotegidos e capturaram quase que de forma
idêntica ao que os guerreiros persas fizeram em 546 a.C.
Semelhantemente, a igreja em Sardes não cuidou dos seus “muros”,
permitindo que fossem escalados, para ser invadida, dominada e
influenciada negativamente, promovendo morte. Não foi assim também com a
história mundial da igreja? Já não lemos e testemunhamos em
continentes, países, estados, cidades, distritos e bairros de igrejas
locais que nasceram, experimentaram a plenitude da vida no Espírito,
adoeceram e morreram?
Enquanto
denominação evangélica, em que somos melhores que tais igrejas? Sendo
assim, se não ficarmos alertas, também morreremos. Já há sinais de morte
em vários lugares, mas temos vida do Espírito ainda presente em várias
congregações. A ordem é para fortalecer as pessoas e aquilo que de bom
ainda há na igreja. Não nos basta ser uma grande igreja, é preciso ser
uma igreja de obras perfeitas. Quantidade sem qualidade não tem valor no
Reino de Deus.
Lembra-te,
pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te.
Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo
algum em que hora virei contra ti. (Ap 3.3)
A ordem para a igreja em Sardes foi “lembra-te” (gr. mnemoneue).
No grego o verbo se encontra no modo imperativo, no tempo presente e na
voz ativa, ou seja, implica em uma ordem de Jesus que deveria ser
cumprida durante todo o tempo pelos crentes em Sardes. A constante
lembrança daquilo que recebemos e aprendemos é fator essencial para não
entrarmos num processo de morte.
Assim
como no caso de Éfeso, o arrependimento é também exigido. O
arrependimento que possibilita novamente o perdão e aceitação de Deus é
mais do que simples verbalização de frases prontas e impressionistas. O
termo grego para “arrependimento” aqui se deriva de metanoeo, que
implica em mudança de pensamento ou mentalidade que resulta em mudança
de sentimentos e atitudes. É uma mudança plena de uma condição que
desagrada a Deus, para uma outra condição de o alegra. Arrependimento é
tristeza diante do pecado, e não simples remorso (2 Co 7.10).
Tens,
contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas
vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas. (Ap 3.4)
Como
bem colocado por Kistemaker: “Entre as cinzas do fogo se encontram uns
poucos tições fumegantes, que com um lufada de vento arderão em chama”.[1]
No grego, lemos literalmente “tens poucos nomes” (echeis oliga onomata),
o que implica na ideia de que o Senhor conhece os seus individual e
nominalmente (Is 43.1). Esse pequeno grupo de crentes em Sardes não se
dobrou diante do secularismo, do pluralismo religioso, nem do
relativismo moral vigentes. A pureza e santidade dos tais foram
simbolizadas pelas roupas de cor branca. Sim, é possível viver em meio à
corrupção espiritual e moral, e mesmo assim manter as vestes limpas e
incontaminadas. Tal condição é indispensável para andar, caminhar lado a
lado com o Senhor.
Para aqueles que se enquadram no perfil do remanescente fiel da igreja em Sardes, fica a promessa:
O
vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum
apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu
nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Quem tem ouvidos, ouça o
que o Espírito diz às igrejas. (Ap 3.5-6)
